A POESIA SEMPRE FOI PUNK – OU DE COMO RESISTE AO TEMPO

14/05/2015 08:43

Frederico Spencer

A história da evolução humana pode ser contada também através da história da evolução da comunicação entre os homens. Através dos tempos, várias mudanças de origem orgânica e de seu modo de produção concorreram para apontar novos caminhos para o desenvolvimento do homem e de sua formação cultural, ajudando-o a construir seu processo civilizatório.

Este processo começa quando o homem passa a utilizar os gestos e seu aparelho fonador como meio de se comunicar com seu grupo. Para alguns estudiosos, o teatro e a poesia nascem neste momento. Neste instante da história, a oralidade é o meio de comunicação utilizado. O segundo passo deu-se quando o homem descobriu a habilidade das mãos, transformando-se no maior veículo de comunicação. Este momento foi marcado pelo nascimento da escrita.

Já nos tempos atuais, devido ao desenvolvimento tecnológico da informação, o qual serve como suporte para a economia de mercado, que requer a rapidez constante na troca de informação, a visão passa a servir como meio necessário para a sobrevivência do homem numa sociedade altamente competitiva, onde a rapidez dos acontecimentos ocorre na velocidade da internet.

A quantidade atual de conteúdos na rede impõe ao homem moderno um novo modo de leitura seguindo a velocidade dos kbytes, onde os olhos e o cérebro reagem na medida em que vão penetrando nos hipertextos oferecidos na rede mundial.

Os hipertextos são conteúdos postados na rede mundial de computadores, que servem como base de pesquisa para os usuários. Esses textos são alimentados constantemente através de links que levam o leitor a outros conteúdos, aumentando de forma extraordinária a quantidade de informações, como se fossem desdobramentos do mesmo assunto.

Quebrando a rigidez do modo de leitura formal, o hipertexto nos lembra, de certa forma, a linguagem utilizada pela literatura e principalmente pela poesia - a linguagem simbólica, utilizada como recurso para sairmos do coloquial e alcançarmos outra plataforma de assimilação da realidade, assemelha-se pelo exercício de transportar o leitor a outra forma de pensamento, ampliando seus sentidos através da descoberta de novos conteúdos, utilizando as velhas palavras habituais.

A capacidade que a poesia tem de transportar o leitor de uma realidade à outra, abrindo caminhos para novas percepções, promove novos conceitos e conteúdos, utilizando como matéria-prima palavras usuais. Este fato nos mostra o real papel da internet: o de conduzir o leitor para um universo cada vez maior.

Como exemplo, podemos utilizar um fragmento do poema “TECENDO A MANHÔ de João Cabral Melo Neto: “Um galo sozinho não tece uma manhã:/ele precisará sempre de outros galos./De um que apanhe esse grito que ele/e o lance a outro; de um outro galo/que apanhe o grito que um galo antes/e o lance a outro; e de outros galos/que com muitos outros galos se cruzem/os fios de sol de seus gritos de galo,/para que a manhã, desde uma teia tênue,/se vá tecendo, entre todos os galos.../. Assim como as páginas na tela se abrem para o amanhã.

 

 

 


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